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“Sorry Mr. McLaughlin”

maio 22, 2013

Sem dúvida alguma as duas edições do “Festival Internacional de Jazz S.Paulo/Montreux” foram palco de vários acontecimentos e fatos que , de uma forma ou de outra deram oportunidade ao surgimento de várias histórias . Nessa série já relatei sobre a entrevista coletiva que Stan Getz transformou em diálogo e com o sensacional reencontro com Phil Woods e seu “cachimbo mágico”.Agora vamos nos reportar a edição de 1980 daquele evento, cuja programação, à exemplo do anterior, misturava vários gêneros e por conseqüência jornalistas e críticos multifacetados, especializados,ou não em Jazz e rock.
Entre os artistas convidados estava o guitarrista inglês John McLaughlin, com muita evidência na época em função de lançamentos de seus discos pela CBS com a banda “Mahavishnu”. Apesar de ter recebido todos os Lp’s, não toquei nenhuma faixa no programa até porque nada tinham a ver com o Jazz. Assim ,não me animei muito quando fui avisado que o mesmo daria uma “press conference” e que segundo a divulgadora que me fez o convite “ a minha presença era muito importante “.
Meu objetivo então foi observar o comportamento da “turma do rock” ; como atuavam nessas ocasiões,que tipo de perguntas faziam ao artista etc.etc.
A entrevista foi de manhã e logo começaram a surgir os interlocutores. Fáceis de identificar . Os mais jovens andavam quase saltitando, papel e lápis na mão aguardando o grande momento. Os maduros, todos ou quase todos, usando barba e cabelo grande, como se isso demonstrasse um alto grau de intelectualidade.
Começa a entrevista e as primeiras perguntas falam em “Beatles”, “Rolling Stones” e outros grupos menos votados. McLaughlin pacientemente os elogia mas nega alguma influência, pelo menos instrumental . Me senti uma ilha cercada de rock por todos os lados. Falaram em “Mahavishnu” e o guitarrista informou que fora apenas uma experiência com a cultura musical indiana. Já estava com sono e resolvi fazer uma pergunta pelo menos para justificar minha presença ali.
Indaguei se tinha alguma influência do Jazz e o que achava da música de Charlie Parker. A resposta me surpreendeu :
“Esse pessoal é muito antigo, não é do meu tempo .”
A turma do “rock” exultou. Risinhos e olhares debochados tomaram conta do ambiente . O único representante do Jazz na seleta mesa de críticos recebera um torpedo. Como um “boxeur” ,absorvi lentamente o golpe e aguardei pacientemente o término da entrevista. Foi quando McLaughlin falou em Django Reinhardt. Dei um soco na mesa e o interrompi,com o roqueiro Jamari França (justiça seja feita) me ajudando no inglês: “Você disse que Charlie Parker era velho para você, entretanto Django é muito mais velho e ai ?”
Mc Laughlin coçou a cabeça,sorriu meio sem jeito e me elogiou como um “very smart man”. Os risinhos cessaram.
Não sei porque cargas d’água quase no final McLaughlin falou em Bill Evans e quis identificar o baterista do primeiro trio, cujo nome esquecera .
Entrei “de sola” – “The drummer was Paul Motian ! ” .O guitarrista agradeceu e mais uma vez teceu elogios a minha pessoa. Apenas respondi : “It’s my job”.
Meses depois McLaughlin voltou a São Paulo para apresentações no ginásio da Portuguesa de Desportos e ,como convidado da CBS, fui com Arlindo Coutinho. Antes do show, houve um coquetel de boas vindas no Hotel Belmonte ao qual comparecemos e tivemos agradável surpresa. Ao chegar,McLaughlin me reconheceu, me abraçou e lembrou da “press conference”. Tomamos um ”drink” e fomos incorporados para o longínquo ginásio da Portuguesa .
Nada de novo musicalmente e espantoso foi ir aos camarins e verificar as chamadas “exigências contratuais”. Sobre uma mesa, sete ou oito qualidades de queijos, um balde abarrotado com garrafas de champanhe e cerca de cinqüenta toalhas brancas . Ninguém comeu ou bebeu nada e creio que também as toalhas ficaram intactas. O pessoal da limpeza deve ter passado bem.
Dia seguinte nova surpresa : no vôo de volta para o Rio quem se senta ao meu lado ? John McLaughlin . Caloroso aperto de mão e a gentileza de autografar uma foto para o meu filho . Coisas do Jazz.

http://cjub.com.br/historiasdojazz.html

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