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“LESTER x HAWKINS

maio 22, 2013

Essa história realmente não aconteceu, é ficção que escrevi tempos atrás, baseado na longa convivência que mantive durante todos esses anos com grupos de entusiastas pela arte do Jazz. Aproveitei algumas notícias constantes da revista “Jazz Magazine” sobre a atividade de músicos na Europa para dar um cunho de autenticidade ao escrito. Desculpas peço pelo sonoro palavrão que encerra a trama, necessário ao texto que sem ele não teria graça. Outra coisa, o final da história é “mutatus mutandi”, ou seja, se o leitor não concordar com os “presentes” poderá trocá-los a seu bel prazer.

A Guerrinha no Jazz
Cláudio e Edgar eram amigos de infância. Estudaram nos mesmos colégios, jogaram futebol no mesmo time da rua , freqüentaram as mesmas festas e como todos os mortais namoraram as meninas do bairro.
A faculdade os separou. Cláudio cursou arquitetura e Edgar ingressou na A.M.A.N. Continuaram amigos até surgir a primeira divergência propiciada pelo Jazz. Cláudio era admirador incondicional de Lester Young. Tinha muitos Lp’s do saxofonista e analisava minuciosamente o seu estilo de improvisação. Edgar contestava e proclamava alto e bom som que ninguém tocava sax-tenor melhor que Coleman Hawkins. Eram discussões intermináveis a ponto dos amigos chegarem a intervir nas reuniões que promoviam para ouvir Jazz, alegando que estavam perdendo tempo . Cláudio argumentava: “Só quero dizer que a sonoridade de Lester é superior a de Hawkins. Ele não sopra notas inúteis só para exibir técnica. Cada frase dele é construída com apuro, notas bem colocadas realçando as idéias geniais na organização do improviso .”
Edgar contestava : “Lester não tocava muitas notas porque não tinha a técnica de Hawkins. Lester não tem no curriculo um “Body and soul” que se tornou paradigma para qualquer músico de Jazz. Jamais poderia criar um “Picasso”, que Hawkins imortalizou em gravação “”a capela”. “
Cláudio rebatia : “pois é, o “Body and soul” foi tao tocado que hoje dá nojo ouvir. O tal “Picasso” ele tocou “a capela” porque nenhum músico o quiz acompanhar.”
Entre um whisky e outro a discussão reacendia e apesar da intervenção dos amigos acabaram cortando relações.
O tempo passou. Cláudio era um arquiteto de sucesso e Edgar, já capitão, viajara para servir fora do Rio.
Passados alguns anos, os amigos resolveram fazer uma reunião de confraternização às vésperas do Natal. Edgar voltara para o Rio e era a oportunidade de juntar a turma, ouvir um bom Jazz e até organizar um “amigo oculto”. Combinaram que dariam um jeito no sorteio para que Edgar e Cláudio trocassem presentes. Assim fariam as pazes e tudo acabaria bem. Os dois foram informados pelo telefone a quem dariam os presentes e não fizeram objeção.
No dia aprazado a reunião aconteceu com a presença de todos os amigos. Histórias foram recordadas, os jogos de futebol, os bailes, as namoradas e finalmente o Jazz.
Hamilton, que estivera na Europa, relatava com entusiasmo as apresentações que assistira. Sidney Bechet dera um canja no “Le boef sur le toit” que acabou as oito da manhã. Stan Getz tocara com uma seção rítmica dinamarquesa no Olympia e também fez sucesso . Mas, o que mais o impressionara foi a apresentação do trio de Bud Powell no Festival de Berlim. Coleman Hawkins foi o “guest star” do trio e arrasou. Seu “All the things you are” foi aplaudido de pé por uma multidão entusiasmada.
Ouvindo o relato, Cláudio engoliu o resto do whisky, preparou outra dose e sem jeito assimilou a verdadeira elegia a Hawkins feita por Hamilton. Edgar aproveitou a chance e entrou na conversa, afirmando com provocação que “só um surdo não consideraria Hawkins o maior sax-tenor de todos os tempos.” Cláudio ruborizou, engoliu outra dose de whisky e retrucou : “questão de opção; afinal é preferível ser surdo do que ouvir Hawkins.”
A discussão ia recomeçar quando Hamilton, o anfitrião interviu : “amigos, estamos nos revendo depois de tantos anos e o objetivo é justamente confraternizar e esquecer essa discussão boba que não leva a nada. Porisso gostaríamos que vocês se abraçassem e vamos distribuir o “amigo oculto”.
Meio sem jeito os dois se abraçaram e começou a troca de presentes. Por coincidência os embrulhos de Cláudio e Edgar eram idênticos, comprados na mesma loja, invólucros de CD. Os dois abriram os presentes ao mesmo tempo e bradaram em uníssono: FILHO DA PUTA !
Ambos ganharam o CD “Cê” de Caetano Veloso

http://cjub.com.br/historiasdojazz.html

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