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Encontros com Stan Getz

maio 22, 2013

Foram três as ocasiões em que estive com Stan Getz, procurando as chamadas “informações importantes” que nem sempre constam dos livros.

Primeiro Encontro
A primeira foi em 23 de setembro de 1976, quando se apresentou no Teatro João Caetano acompanhado por Joanne Brackeen (p)-Clint Houston (b) e Billy Hart (dm). Como convidado teve o percussionista Ray Armando e como “bicão” o seu filho Steve Getz, canhoto e mau baterista. Nosso diálogo foi curto e grosso sublinhado com a frase “I hate the past”. Autografou a “Jazz Encyclopedia” com manifesta má vontade e sumiu nos bastidores. Nossa conversa aconteceu com a pianista Joanne Brackeen já com a carreira deslanchando e alguns discos gravados. Tive a sorte de também conhecer Norman Granz que não se opôs a autografar nossa enciclopédia. E ficamos nisso.

Segundo Encontro
Nosso segundo encontro ocorreu em 1980, durante a realização de segundo Festival Internacional de Jazz São Paulo/Montreux”. Nem me lembro com quem tocou e confesso que não me interessei muito pela sua apresentação. Entretanto, a CBS por intermédio de Arlindo Coutinho preparou uma “press conference” na beira da piscina, pela manhã, com as mordomias oferecidas pelo Hotel Eldorado/Higienópolis: sucos, frutas da estação, chá e café.
Chegaram alguns jornalistas e o que mais me chamou a atenção foi um “robusto” rapaz, vestido com uma túnica branca como se fosse um árabe que , com trejeitos anunciava o que iria perguntar. Dizia que ia “arrasar” indagando sobre o relacionamento de Getz com Astrud, ao mesmo tempo em que afirmava que se não fosse a Bossa Nova, Getz estaria encalhado. Falava e gesticulava revirando os olhos e se algum maranhense o visse certamente o chamaria de “qualira”. Após as primeiras perguntas Getz pediu licença, foi para a piscina, mergulhou, nadou e voltou para a mesa com expressa má vontade. Fiz então a minha primeira pergunta. Se lembrava de uma gravação que fizera para a Prestige com o pseudônimo de Sven Coolson ao lado de Jimmy Raney, Hall Overton, Red Mitchell e Frank Isola. E mencionei as quatro faixas : “Motion”, “Lee”, “Signal” e “Round about midnight”. Arregalou os olhos e delicadamente começou a dialogar, explicando que o pseudônimo fora usado em razão de contrato com outra gravadora. Perguntei qual o disco que mais gostava entre as suas gravações e a resposta me impactou : “FOCUS” . Ia questionar sobre a qualidade jazzística do álbum mas, além do meu péssimo inglês seria uma idiotice discutir com o “mestre”.
Na medida em que a conversa se estendia ,Getz me pegou pelo braço e vagarosamente deixamos a mesa, transformando a “press conference” em diálogo. Reclamava muito das perguntas que os jornalistas lhe faziam, sempre abordando “bossa nova”, João Gilberto, Astrud etc. Sobre sua carreira nada. Ao saber que eu estivera na véspera com Jimmy Rowles perguntou preocupado se ele bebera. “Jimmy não pode botar uma gota de álcool na boca.”. Informei que o pianista bebera apenas uma cerveja. Engrenei então a pergunta que mais agradou ao saxofonista:
O que achara do álbum “The Peacocks”, gravado com Rowles, récem lançado no Brasil ?
Mais uma vez exaltou a arte de Rowles como pianista e compositor e aproveitou a oportunidade para saber se a CBS poderia lhe ceder uns dez exemplares. Coutinho, ciente da solicitação providenciou com urgência .Tiramos uma foto e no dia seguinte nos despedimos, não sem antes Getz agradecer os discos que recebera e autografar um dos exemplares para nós.

Terceiro Encontro
Aconteceu meses depois quando o jornal anunciou apresentações do quinteto de Getz no Caesar Park Hotel nos dias 11,12,13 e 14 de setembro. Cláudia Fialho, gentil como sempre, nos enviou convite para a “press conference” e obviamente para a estréia na noite seguinte. A entrevista coletiva foi um desastre pois as perguntas se repetiam “ad nausean”. Getz levantou-se mau humorado e ia se retirar quando foi abordado por alguém que, tendo ao lado uma “cantora” , pediu um particular. Getz acedeu mas, em poucos minutos, aos berros ,expulsava do recinto o famoso alguém, o “ tribuno,” o “jazz educator”, que saiu com o rabo entre as pernas levando a reboque a “cantora”.Disseram que queria colocar a mesma no show ..
A estréia no dia seguinte foi excelente. O grupo de Getz era integrado por jovens músicos,Michel Forman(p)- Chuck Loeb(g)- Todd Coolman(b) e Mike Hynn(dm). Ficamos em mesa privilegiada junto ao palco eu, o casal Arlindo Coutinho e Monica, esposa de Getz, que inclusive identificou alguns temas para nós. A surpresa foi a chegada de Wayne Shorter que deu uma canja, meio desajeitada, usando o soprano de Getz. Terminado o show Getz veio para a mesa onde começou a desarmar seu sax. Tirou a palheta, autografou e deu de presente para Coutinho.
E então declarou: Há muito tempo eu não toco em um lugar tão agradável. Um som perfeito, uma platéia atenta e uma formidável integração. Tocar em festival é ótimo pois ganhamos dinheiro, gozamos férias , conhecemos novos lugares, mas, tocamos profissionalmente, sem muita preocupação. E nada mais foi dito nem perguntado.

http://cjub.com.br/historiasdojazz.html

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