Skip to content

“American Jazz Festival” – 1961

maio 22, 2013

Não há dúvidas de que a troupe do “American Jazz Festival” foi o melhor grupo a se apresentar no Rio de Janeiro até hoje. A turma das “Lojas Murray” ficou agitada ao saber, por intermédio de Sylvio Tullio e Estevão Hermann, que as datas de 17 e 18 estavam acertadas para as apresentações do grupo, que tinha entre outros: Coleman Hawkins, Al Cohn, Zoot Sims, Kenny Dorham, Roy Eldridge, Jo Jones e Tommy Flanagan.
A estréia seria na noite de 17 de julho no Teatro Municipal e a corrida para a aquisição dos ingressos foi rápida, com a “Niteroi Crew” saindo na frente. A ansiedade era tanta que às 11 horas do dia da estréia a turma já estava entrincheirada no Aeroporto Santos Dumont. Chegou o avião vindo de São Paulo, onde o grupo já se apresentara e através dos vidros pudemos identificar os músicos que desciam as escadas da aeronave e se aproximavam da salão de desembarque
Meu arsenal consistia no LP n° 001 da gravadora Bethlehem, com a loiríssima Chris Connor acompanhada pelo trio de Ellis Larkins, um 78 rpm de 12 polegadas da gravadora Shelton com o quarteto de Coleman Hawkins (Eddie Heywood, Oscar Petiford e Shelly Manne) interpretando “Sweet Lorraine” e “The Man I Love” e a inseparável “Jazz Encyclopedia”, de Leonard Feather.
Chris Connor autografou o disco ainda no salão enquanto Hawkins só o faria em pleno ônibus que levaria o grupo para o Hotel Guanabara, onde ficariam hospedados. Nessa ocasião, mostrou o disco para Roy Eldridge e disse : “Parece que sou conhecido por aqui.” A Encyclopedia recebeu os demais autógrafos (todos) no lobby do hotel, onde a alegria era geral.
Sylvio Tullio conversava com Joe Jones e nos aproximamos para ouvir uma das muitas histórias contadas pelo baterista. Dizia ele que durante a guerra a sua companhia chegou em uma cidade italiana que fora ocupada pelos alemães. As ordens eram para todos terem cuidado com os franco-atiradores. Mas, disse Joe, um deles por trás de uma janela atirou em mim e só por sorte a bala não me atingiu. Pus a cabeça para fora e gritei: “Ei alemão, cuidado, eu sou o baterista Joe Jones” e de longe o alemão respondeu :”Oh, Mr. Joe Jones, excuse me!” Gargalhada geral.
Os músicos se recolheram e, para comemorar, fomos todos para o Amarelinho tomar chope e comer alguma coisa. Foi quando Robert Celerier nos convidou para sua casa para ouvirmos discos até a hora do show. Foi o que fizemos. De volta ao Teatro e devidamente acomodados, aguardamos com ansiedade o início do show. Quem não viu, pelo menos poderá ouvir, por intermédio dos dois CDs da Imagem, “Jazz no Muncipal”, o que foi aquela noite.
O time de Niterói, escalado com Carlos Tibáu, Nelson Reis, Raymundo Flores da Cunha (Mr.Jones), Luiz Fernando de Pinho e este escriba, junto a outros atletas da Murray, vibrava com o que via e ouvia. “Mr. Jones” me pergunta se Al Cohn e Zoot Sims tocariam “The Red Door”. Antes de responder que não sabia, a dupla atacou em cima o tema preferido do Mr.
No intervalo, encontrei Sylvio Tullio que de olhos arregalados disse: “Depois do Body and Soul de Hawkins tenho que tomar um whisky, senão tenho um infarto”.
Terminado o “show” fomos, como de hábito, falar com os músicos nos bastidores. E aí aconteceu algo que eu só soube depois, por intermédio de Nelson Reis que viu e participou do acontecimento: uma roda foi formada em torno de Kenny Dorham e Curtis Fuller. As perguntas se sucediam e entre uma resposta e outra, passei meu braço em volta do ombro de Curtis Fuller e nem notei que ele de imediato abaixou a cabeça e se afastou. Nelson Reis percebeu alguma coisa e foi falar com o trombonista, que estava com olhos marejados de lágrimas. Ao ser interrogado, Curtis disse que se emocionara porque pela primeira vez fora abraçado por um branco. Aí Nelson explicou que aqui a amizade e a admiração que todos tinham pelos músicos não permitiriam qualquer tipo de discriminação o que, segundo Nelson, não foi suficiente para conter as lágrimas de Fuller. Repito, só fui saber disso depois.
Estevão Hermann e Sylvio Tullio Cardoso engrenaram com o empresário Monte Kay, que acompanhara o grupo, uma terceira exibição, que aconteceu no Cinema Eskye na Tijuca. Só que, além de não terem ido todos os músicos, o espetáculo foi devidamente estragado com a invasão de “Monsueto Menezes, suas mulatas e passistas”, na segunda parte. Dia seguinte, um idiota de plantão escreveu no jornal que “o samba venceu a batalha contra o Jazz” mas, esqueceu de mencionar que quem pagou para ver Jazz se retirou, ou seja, oitenta por cento da platéia.

Para quem quiser anotar, eis aí a formação da “troupe”: MC – Willis Connover (Voice of America);
Coleman Hawkins , Al Cohn, Zoot Sims (ts)- Kenny Dorham e Roy Eldridge(tps)- Herbie Mann(fl)- Curtis Fuller(tp)- Ronnie Ball e Tommy Flanagan(p)- Ben Tucker e Ahmed Abdul Malik(b)- Dave Bailey e Joe Jones(dr)- Ray Mantilla(perc) – Chris Connor (vo).
http://cjub.com.br/historiasdojazz.html

Anúncios

From → Uncategorized

Deixe um comentário

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: