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Análise Indiscreta

maio 15, 2013

Por volta da meia noite (Round midnight, 1986)

Por volta da meia noite é um belo e estranhamente desconhecido retrato cinematográfico do jazz. Ele captura um lado mais melancólico do gênero, de onde se extrai muito de sua beleza, com a história da relação entre Dale Turner, um saxofonista que em 1959 se muda para a França, onde imagina ter mais respeito, e Francis Borler, designer e documentarista amador que, por acaso, conhece e se torna amigo pessoal de um dos seus maiores ídolos. A história, na verdade, é inspirada nas vidas de Bud Powell (e também Lester Young), interpretado por Dexter Gordon em pessoa, e Francis Paudras, vivido pelo ator francês François Cluzet.

É um filme de decadência, e não de ascensão. O protagonista, já com a saúde debilitada, apesar de ser considerado um gênio, não colhe os frutos merecidos do seu trabalho – pelo contrário, toca todas as noites em bares para receber uns trocados, boa parte deles desviados de sua agenciadora/amante. Um fato dessa era dos grandes músicos de jazz, quase todos negros: a despeito do talento até hoje reconhecido, viveram em condições por vezes degradantes, exatamente o contrário do que acontece com artistas pop medíocres ou péssimos mesmo de hoje em dia.

Nós acompanhamos, então, esses momentos de quase morte do músico (ele diz que nada na vida mais o interessa, exceto o jazz). É, no entanto, com a amizade desse fã incondicional, que consegue um pouco de dignidade e volta ao mundo real, chegando inclusive a passar uns tempos no apartamento dele com sua filha. Bud Powell é um alcoólatra: muitas vezes some das vistas e é encontrado desmaiado nas ruas ou em algum hospital público. A persistência de Francis Paudras não é apenas a persistência de um fã, logo passando a ser a de um amigo, também em crise com o recente divórcio, cuja identificação vai além da música.

Quem espera um filme com aquela intensidade feroz do jazz, irá se decepcionar. Não é este o foco de Por volta da meia noite, ainda que exista, tanto na alma dos personagens como na música, um resquício daqueles tempos de juventude, drogas, bebidas, mulheres e farras. Esse lado da relação artista/música existe apenas nas lembranças: o corpo de Bud Powell já não mais permite seus abusos. O drama de Bertrand Tavernier, cuja obra desconheço, é como uma chuva de final de tarde. Não chega a desconcertar, até porque não é esse o seu propósito. A beleza deste filme, com trilha sonora de Herbie Hancock (que inclusive participa atuando, assim como Martin Scorsese) é muito mais acolhedora.

Nota: 8

http://analiseindiscreta.wordpress.com/2012/03/19/por-volta-da-meia-noite-round-midnight-1986/

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