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Sugestões dos mestres LOC e de Muggiati

maio 14, 2013

Sugestões dos mestres LOC e de Muggiati
Lançamentos

Luiz Orlando Carneiro nos apresenta lançamentos de dois dos maiores saxofonistas de jazz da atualidade: Wayne Shorter e Chris Potter. Já Roberto Muggiati nos apresenta a revelação do jazz português Maria Mendes e dois grandes instrumentistas do samba jazz: Flávio Bala e Hamleto Stamato.

13/03/2013 – Luiz Orlando Carneiro, Jornal do Brasil e Roberto Muggiati, O Estado de São Paulo.

Wayne Shorter – Without a Net
O novo álbum do quarteto de Shorter é o quarto, depois de Footprints live! (2002), Alegria (2003) e Beyond the sound barrier (2005) – estes três editados pela Verve. E o título Without a net – ou seja, “sem rede de proteção” – é muito apropriado, pois os quatro jazzmen assumem todos os desafios e riscos inerentes à criação de uma música sem a habitual lógica das chords changes e da divisão de solos ou choruses a partir de um determinado tema, em geral na forma AAB (ponte)A. Aliás, o próprio ícone do jazz – que comemora 80 anos em agosto – disse em recente entrevista: “I’m not a composer, I’m a decomposer”.

Desde a primeira action playing de Without a net, que é Orbits (4m45) – tema escrito para o LP Miles smiles (1967), daquele célebre quinteto modal de Miles Davis – as “decomposições” do saxofonista (mais no sax soprano do que no sax tenor) vão surgindo de maneira fragmentária. Às vezes, a partir de ostinatos sombrios do piano ou do baixo, em crescendos que chegam a cumes vertiginosos. Starry night (8m45) abre com o piano de Perez, até os 2m30, insinuando-se então, em murmúrios, o contemplativo sax tenor do líder, que se torna mais e mais incisivo, num clima polirrítmico, até o zênite da faixa (lá pelos 6m), quando a bateria e o sax soprano promovem um exuberante final.

Wayne Shorter escreveu Plaza real para o álbum Procession (1983), do grupo fusionista Weather Report, de Joe Zawinul. No novo disco, a melodia é inicialmente “decomposta” pelo tandem sax soprano-piano, e o quarteto é lava fervente em constante ebulição. S.S. Golden Mean (5m15) é outro momento fascinante dessa gravação ao vivo, na base do aqui e agora, com citações de Manteca (o tema Latin-bop de Dizzy Gillespie) e evoluções acrobáticas de Shorter no soprano. Myrrh (3m05) é a faixa mais curta do álbum, mas nem por isso menos hipnótica. Flying down to Rio (12m45) – tema de um filme de 1933 (!) da dupla Fred Astaire-Ginger Rogers – começa com um simples assovio de Shorter, mas logo depois o seu sax soprano “voa” por sobre a batucada de Blade e o piano percussivo de Perez (Luiz Orlando Carneiro, Jornal do Brasil 23/02/2013).

Chris Potter – The Sirens
Chris Potter voltou à ECM para gravar, em setembro de 2011, o seu disco mais autoral, mais especulativo e mais surpreendente. Trata-se do recém-lançado The Sirens – uma suíte de sua lavra de nove partes, inspirada na Odisseia, de Homero. Seus companheiros de viagem são Craig Taborn (piano), o jovem pianista cubano David Virelles (piano preparado, efeitos na celesta e no harmonium), Larry Grenadier (baixo) e Eric Harland (bateria).

A melodia inebriante de Wine dark sea (8m40) exposta pelo sax tenor encorpado do líder, e comentada pelo baixo impecável de Grenadier e por Taborn, dá a largada para o desenvolvimento, em “formas abertas”, da suíte. Wayfinder (6m45) realça impressões de momentos mais dramáticos das peripécias de Ulisses, com o tenor de Potter explorando rotas surpreendentes num clima percussivo assimétrico criado pelos dois pianos e pela seção rítmica extraordinária (Vale lembrar que Grenadier e Harland são integrantes de dois dos mais importantes combos do jazz contemporâneo – o trio de Brad Mehldau e o quarteto de Charles Lloyd, respectivamente). Em Kalypso (8m20), peça de batida contagiante, tem-se a impressão de que quem sopra o tenor é o grande Sonny Rollins.

Os momentos mais contemplativos do quarteto-quinteto de Chris Potter estão na faixa-título (8m30), na qual o líder “declama” o tema no clarinete baixo, seguido pelo contrabaixo com arco de Grenadier (dos 3m20 aos 5m), e retoma o sax-tenor para o solo conclusivo. No mesmo mood são interpretadas Penelope (7m15), com Potter no sax soprano; Dawn (with their rose fingers) (7m20); e a minimalista e etérea faixa final The shades (2m10), um dueto dos dois tecladistas (Luiz Orlando Carneiro, Jornal do Brasil 09/02/2013).

Maria Mendes – Along the Road
Karol Boehlee (piano), Clemens van der Feen (baixo) e Jasper van Hulten (bateria), além do gaitista Wim Dijkgraaf, discípulo de Toots Thielemans participam do cd de estreia de cantora portuguesa de jazz Maria Mendes. “Along the Road”, foi gravado no ano passado na Alemanha e Holanda e mixado na África do Sul, refúgio do “mago” Hein van de Geyn, que foi contrabaixista de Chet Baker. Na excursão de divulgação do cd no Brasil, foi acompanhada por um trio de feras: Kiko Continentino (piano), Paulo Russo (baixo) e Márcio Bahia (bateria), além do gaitista do CD, Wim Dijkgraaf, holandês que também é dos nossos, por ser casado com uma brasileira.

As dez faixas do álbum – “uma criança gestada ao longo de nove meses” – são uma amostra da polivalência de Maria: dois standards de Harold Arlen, Over the Rainbow e Come Rain or Come Shine; três canções brasileiras com a letra em inglês: Love Dance, de Ivan Lins e Gilson Peranzetta; Obsession, de Dori Caymmi e Peranzzetta, e So Many Stars, de Sérgio Mendes; duas em “brasileiro”: Verão, de Rosa Passos, e Começar de Novo, de Ivan Lins; e uma na língua universal do scat, um saltitante Chorinho Pra Ele, viajando pelas harmonias geniais de Hermeto Pascoal. E, é claro, as duas faixas em que Maria, além de intérprete, mostra seu lado autoral: Olha Só no Meu Olhar, parceria com Pat Metheny; e Saia Preta, um tema que remete à nostalgia luso-brasileira (Roberto Muggiati, O Estado de São Paulo, 23/02/2013).

Flávio Bala – Noel Rosa ao Entardecer
Não sei se o músico Flávio Bala conhece a máxima de Lester Young que diz o seguinte: “Mesmo o instrumentista, para improvisar bem uma canção, deve pensar sempre na letra”. Não importa. Saxofonista, como o mestre, ele vai por instinto. Neste seu terceiro CD, alternando-se ao alto e ao soprano, Flávio Bala faz uma leitura pessoal de nove clássicos do Poeta da Vila. Tanto nas canções mais conhecidas de Noel Rosa, como em temas menos tocados, entreouvimos no fraseado cantante de Flávio letras antológicas como “Agora vou mudar minha conduta / Eu vou pra luta pois eu quero me aprumar” (Com Que Roupa?); “Mentira não é crime / É bem sublime o que se diz / Mentindo para fazer alguém feliz” (Mentir).

Segundo Flávio, as melodias de Noel são muito ricas: está tudo ali, não precisa inventar. Mesmo se aventurando em naipes de sax, gravados em overdubs, Bala diz que pretendeu “um som de fim de tarde, para envolver e seduzir o ouvinte, sem jamais o perturbar”. Eu diria mais: parece que, com seu sambop suave, apoiado pelo piano suingante do irmão Renato Neto, parceiro deste projeto, Bala toca para seduzir o próprio Noel Rosa(Roberto Muggiati, O Estado de São Paulo, 16/02/2013).

Hamleto Stamato – Speed Samba Jazz 4
Nenhum dilema neste Hamleto. O sobrenome, em italiano, dá a chave: stà matto = está louco. Louco para tocar. Filho de Hamleto, que tocou sax e flauta com o Hermeto, filho de 1968 (fez 45 anos no dia 2), filho de Bebedouro, São Paulo, íntimo do piano desde os cinco anos, improvisa, arranja e compõe como poucos. Carioca há 30 anos, adotou também o som da bossa instrumental, bebeu na fonte do Tamba Trio, Milton Banana Trio, Tenório Jr e Luizinho Eça. Deste, o CD traz o genial The Dolphin – inspirado num golfinho que Luizinho (só ele) viu ao entardecer na Lagoa, quando tocava no Chiko’s Bar, e se tornou um favorito de Bill Evans: ouçam suas nove takes nas sessões completas da Verve.

Speed samba jazz cheira a algo hi-tech e é isso mesmo: uma máquina de som, acionada por um power trio entrosadíssimo, com Ney Conceição (baixo) e Erivelton Silva (bateria). Mas a técnica prodigiosa está sempre a serviço da emoção. Standards do jazz (Softly As In A Morning Sunrise, Close Your Eyes, If I Were A Bell), do pop (The Look of Love, de Bacharach; Seascape, de Johnny Mandel), Meditação de Jobim, competem com dois originais de Hamleto: Na Lapa e Temalu, este com o violino de Leo Ortiz. Que venha logo o speed samba jazz 5(Roberto Muggiati, O Estado de São Paulo, 16/02/2013).

http://www.clubedejazz.com.br/noticias/noticia.php?noticia_id=1236

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