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A sagrada cerveja na fumaça de um puro cubano

outubro 23, 2011

A sagrada cerveja na fumaça de um puro cubano
Celso Nogueira

Acompanhe as reflexões de uma harmonização entre a La Trappe Quadrupel e o double corona Don Alejandro, das Vegas Robaina.
A maioria das culturas usa drogas – substâncias capazes de alterar a consciência. Quando perdem seu caráter sagrado essas drogas se tornam uma maldição? Devemos respeitar ao menos certos rituais, para desfrutar nosso tabaco e nossa cerveja de cada dia?

A maconha, diamba dos africanos, atendia a necessidades rituais do candomblé, sendo depois de declarada ilegal e trocada pelo tabaco, no Brasil. Mas continua fazendo parte da cultura indiana, e talvez tenha influenciado indiretamente o roteiro de uma recente novela da Globo, na qual a autora viajava um bocado. Os indianos preparam thandhai, uma bebida à base de leite, água, amêndoa e bhang, que vem a ser a popular marijuana.

A mistura conhecida pelo nome de ayhuasca, apelidada jocosamente na Amazônia de “cinema de índio”, extravasou os limites das culturas nativas para se tornar a base de uma nova religião. Leva também os nomes de yagé, caapi, nixi honi xuma, hoasca, vegetal, Santo Daime, kahi, natema, pindé, dápa, mihi, entre outros. O nome mais conhecido, ayahuasca, significa “liana (cipó) dos espíritos”. Como continua restrita aos cultos, não foi proibida.

O tabaco, importante nos rituais do Caribe, extrapolou os limites da crença, para se tornar uma droga recreativa. Já os incas consideravam as folhas de coca sagradas, um presente dos deuses. E sua vingança contra os brancos, pois concentrada deixa de ser um estimulante suave para combater a altura e vira um poderoso veneno.

Contudo, de todas as substâncias entorpecentes, o álcool da tradição cristã tornou-se a mais louvada e maldita, a mais sagrada do altar do consumo e a mais prejudicial à saúde. Até hoje os enófilos rezam ao monge Dom Pérignon, padroeiro do champagne. Os cervejeiros não dispensam goles trapistas, franciscanos e paulinos, como se pode ver nos rótulos de Franziskaner, Paulaner e várias belgas. Todas originadas em mosteiros. Como os famosos (e fora de moda) licores Chartreuse.

No âmbito religioso as drogas servem a finalidades místicas, sendo consumidas em rituais específicos e rigidamente controlados. Bem, deve haver abuso também entre índios e indianos. Nos tempos modernos, o ambiente social saudável funciona como atualização do ritual, determinando em que condições específicas a bebida deve ser apreciada. No caso do tabaco, o charuto e o cachimbo preservam tradições e estimulam a convivência amigável, inimiga do vício e da perdição.

Cervejas trapistas

Uma garrafa de cerâmica com tampa de rolha de cerveja La Trappe Quadrupel, que continua sendo feita no próprio mosteiro, sob supervisão dos piedosos monges trapistas, confirma o tradicional vínculo entre bebidas e a cultura ocidental cristã. A La Trappe vem do mosteiro “Onze Lieve Vrouw van Koningshoeven” na província de North Brabant, na Holanda. É a única cerveja trapista oficialmente feita fora da Bélgica. Bom, a Holanda fica ali na esquina. Os monges trapistas já não trabalham na fábrica, diretamente, mas continuam de olho no processo, são os proprietários da marca registrada La Trappe e não devem perder a chance de celebrar com a dita cuja. Vale lembrar que a cerveja estava entre os alimentos permitidos na época dos jejuns, como na Quaresma. Se sobrasse alguma do Carnaval, claro…

A Quadrupel é como um vinho – teor alcoólico alto (10%), garrafa diferenciada, safrada e com potencial de guarda de alguns anos. Ela passa por uma segunda fermentação na própria garrafa. Isso lhe dá a cor âmbar e uma espuma persistente e cremosa, encorpada. Seu sabor em que predomina o malte, com leve toque defumado; lembra ainda frutas secas, com toques de café, baunilha e mel. Ao contrário das cervejas típicas alemãs, o amargor lúpulo não se destaca, e sim o malte. A Quadrupel é quase doce,

Além da Quadrupel, uma ale, a linha La Trappe apresenta as brejas Blond, Dubbel, Tripel e Witte (de trigo), além da Bock, sazonal. Elas são vendidas em garrafas pequenas tipo long neck, maiores (750 ml) e de cerâmica (500 ml). O site da importadora Bier&Wein, responsável pela distribuição no Brasil, dá algumas dicas:

De acordo com os locais, estas fazendas eram chamadas de Koningshoeven – as fazendas reais – por terem sido um dia propriedade do Rei Willem II. Por este motivo, o monastério também leva esse nome. Construído no estilo neogótico, é rodeado por um lindo parque, que nos leva à contemplação e onde o tempo parece parar. Exatamente o tempo é o que faz com que a tradicional cerveja La Trappe ganhe excepcional personalidade.

As cervejas Trapistas são produzidas com o máximo de cuidado. A cada gole degustado, a tradição, o amor e a paciência empregados em sua produção são percebidos. Para apreciar o melhor da cerveja, é preciso deixar a La Trappe maturar na garrafa por alguns dias. Sirva lentamente a cerveja em uma taça de vidro de boca larga. Segure o copo no mesmo ângulo em que você serve a cerveja, para controlar o tamanho do colarinho. Para manter a transparência perolada da cerveja, sirva-a gentilmente, mantendo no fundo da garrafa o depósito natural de fermento. Entretanto, no caso da Witte Trappist, este depósito deve ser misturado à cerveja, como é tradicionalmente feito com as cervejas de trigo.

A temperatura ideal para consumir a La Trappe é entre 12 e 16º C, exceto a Witte Trappist, que deve ser consumida entre 4 e 6º C. Desta forma, você estará apreciando da melhor maneira o maravilhoso sabor e o completo aroma da La Trappe. Uma última dica: deguste a cerveja no mesmo espírito com que ela é produzida, com paz e plenitude.

Ora e lavora

Existem apenas seis abadias católicas produtoras de cerveja na Bélgica: Chimay, Orval, Rochefort, Westmalle, Westvleteren e Achel. Elas formam, com a Onze Lieve Vrouw van Koningshoeven da Holanda, a elite das cervejas tipo abadia. As trapistas impressionam pela história e personalidade: fermentação alta, densidade forte e teor alcoólico elevado são alguns dos ingredientes de sua fórmula.

A ordem dos trapistas (Cistercienses Reformados de Estrita Observância) é uma congregação religiosa católica que segue a regra beneditina, cujos preceitos são de obediência, silêncio, pobreza e humildade, dividindo o tempo de vida monástica entre o trabalho, o estudo e a meditação. Uma das atividades dos monges trapistas é a fabricação de produtos destinados à venda para o sustento dos mosteiros. O mais conhecido destas abadias é a cerveja. Hoje existem 6 abadias produzindo as seguintes cervejas na Bélgica: Achel (St. Benedictus Abdij Achel), Chimay (Abbaye de Scourmont), Orval (Abbey d’Orval), Rochefort (Abbey St. Remy Rochefort), Westmalle (Abidj Westmalle) e Westvleteren (Abdij St. Sixtus), além das cervejas La Trappe da Abdij Koningshoeven, a única localizada na Holanda. As cervejas trapistas são conhecidas pela sua qualidade e são refermentadas na garrafa, evoluindo com o tempo. Hoje, na maioria dos rankings cervejeiros uma cerveja trapista é considerada a melhor do mundo, a Westvleteren 12 produzida em St. Sixtus.

A Ordem dos Cistercienses Reformados de Estrita Observância, ou Trapa, foi fundada na Normandia, em 1664. Os religiosos do mosteiro Notre-Dame de la Trappe – daí a designação – resolveram remodelar o modo de vida monástico. Enfatizaram os valores da separação do mundo, silêncio, oração, disciplina, obediência e trabalho rural.
Nesse período, os abades começaram a preparar o pão, o queijo e, na França, o próprio vinho. Como a Bélgica não mereceu da natureza a benção da vinha, a solução dos frades foi produzir cerveja, especialidade local.

Chimay

A cerveja produzida nas abadias pulou o muro e começou a ser comercializada profissionalmente após a Segunda Guerra Mundial, nos anos 50. Atualmente, a produção alcança níveis industriais. A Chimay engarrafa 40 000 unidades por hora, ou mais de 10 milhões de litros por ano. O faturamento anda na casa dos 18,7 milhões de euros. Pode parecer uma contradição ao estilo de vida monástico de austeridade, mas não é. A maior parte do lucro da empresa vai para obras sociais na Índia, no Zaire, no Congo e no País de Gales, além de financiar a abertura de mosteiros, desenvolver projetos na região e, é claro, assegurar a subsistência dos monges. Ufa! Eu não sabia que bebendo cerveja estava sendo tão cristão.

O sucesso das cervejas trapistas inspirou outras abadias na produção e comercialização da bebida. Mas é fundamental não confundir cerveja de abadia – como a Saint-Joseph, Saint-Bernardus, Don de Dieu, Leffe e Bohemia Confraria – com a trapista, que, obrigatoriamente, deve ser produzida dentro de um mosteiro da ordem trapista, sob o controle dos monges.

Para defender sua autenticidade foi criada a marca Authentic Trappist Product, uma espécie de AOC (Apelação de Origem Controlada). Para produzir a cerveja no interior de Scourmont foi instalada uma moderníssima cervejaria. O nível industrial das máquinas contrasta com o ambiente silencioso dos jardins e da capela. Os segredos da cerveja trapista são guardados a sete chaves. A água, um dos principais elementos, vem do subsolo da abadia. Ela é utilizada em estado natural, não sofre nenhuma correção de PH ou descarbonização. A levedura também é produzida pelos monges. Foi isolada em laboratório pelo padre Théodore em 1948. O lúpulo é importado de França e da Holanda, o malte vem da Alemanha e dos Estados Unidos. Mas não são apenas os ingredientes que fazem a diferença. A fermentação em alta temperatura, de 18 a 32 graus, que dura cinco dias, é uma das razões da qualidade das cervejas trapistas.

A Chimay não é pasteurizada. Sua espuma e gaseificação são obtidas por um antigo método: o de segunda fermentação. Durante três semanas a Chimay faz a segunda fermentação na própria garrafa, por um processo semelhante ao que ocorre com os grandes champagnes. Os três tipos de Chimay são sempre identificados pela cor da tampa da garrafa. Todas têm uma caracteristica frutada no gosto e no aroma. A Rouge (vermelha) foi a primeira a ser fabricada, em 1862. Durante a fermentação ela adquire um leve aroma de damasco. O gosto frutado e doce, a cor de cobre e a espuma cremosa são algumas de suas particularidades. Possui 7% de álcool. A Chimay Blanche ou Triple (branca ou tripla) foi criada em 1966, pelo padre Théodore. É conhecida pela cor dourada e espuma fina. Seu bouquet combina o aroma do lúpulo fresco com o levedado. O volume de álcool é de 8%. A Bleu (azul), lançada em 1948, era originalmente uma cerveja para celebrar o Natal. Mas o enorme sucesso fez com que a abadia rapidamente ampliasse a produção ao longo do ano. É uma cerveja forte e escura. O aroma de levedura fresca combina com o de rosas. O gosto seco é marcado por uma nota de caramelo. Seu teor alcoólico é o mais elevado: 9%.

A diversidade de cervejas disponíveis no Brasil de hoje é magnífica. Entre as abadias temos a Bohemia e a Leffe (Blonde e Brown), esta última trazida pela Ambev da Bélgica a preços camaradas, pois essas brejas podem chegar a centenas de reais, como é o caso da famosa Deus (que não é trapista).

Por conta do respeito ao ritual, comprei a versão em garrafa de cerâmica da La Trappe Quadrupel e duas taças que mais parecem de sorvete, para harmonizar com um charuto double corona das Vegas Robaina, o Don Alejandro, assim batizado em homenagem ao lendário produtor de fumo. Don Alejandro Robaina serviu, portanto, como sacristão no teste de harmonização, cedendo a hóstia – um Vegas Robaina Don Alejandro, belo double corona cubano, potente, poderoso como um santo pagão.

A combinação da La Trappe Quadrupel com o Vegas Robaina Don Alejandro foi feliz. Embora considerado um charuto forte, já é o segundo que fumo recentemente, e não achei muito potente. Saboroso, mas sem pegada forte. Equilibrado, com sutilezas de sabor que remetem a couro, madeira e especiarias, numa leve doçura cuja afinidade com as cervejas tipo abadia deve ser levada em conta por quem desejar experimentar a harmonização.

Fontes
http://www.buw.com.br/info_latrappe.htm
http://pt.petitchef.com/receitas/orval-fid-278313

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